Imobiliário Muraltalaz: iniciativa pública coloca Madrid na rota da arte urbana Em apenas ano e meio, Muraltalaz trouxe 33 intervenções de arte urbana a fachadas e espaços públicos do distrito madrileno de Moratalaz. 22 abr 2026 min de leitura Nova Iorque, cidade localizada nos Estados Unidos da América (EUA), foi uma das cidades pioneiras a explorar turisticamente a arte urbana: grafittis e murais pintados nas ruas. Há mais de 20 anos já se organizavam tours que te levavam a bairros fora de Manhattan, onde as paredes de prédios e armazéns serviam de tela. Tinha piada porque eram zonas bem longe dos circuitos turísticos de então: saías da carrinha, explicavam‑te as obras e voltavas a entrar quase com a sensação de que, a qualquer momento, podia aparecer um gang juvenil como nos filmes. Publicidade Arte nas ruas das cidades sempre houve – disso dá conta, por exemplo, o livro Guía del arte urbano de Madrid, de Javier Abarca, um percurso histórico pelas ruas da capital através das manifestações artísticas de rua. Como dizíamos, arte no espaço público existe desde que há alcatrão, mas o que já não é tão comum é uma iniciativa pública que valorize este tipo de expressão artística. Daí a relevância do projeto “Muraltalaz”, impulsionado pela Junta Municipal do distrito de Moratalaz, que em pouco mais de ano e meio já reuniu 33 intervenções de arte urbana em edifícios e espaços públicos. “Participaram 30 artistas, todos eles de reconhecido prestígio, tanto a nível nacional como internacional. Destacam‑se nomes como Belin, Sfhir, Lula Goce, Diego As, Kalouf, Millo, Satr, Pichiavo, Bublegum, Mr. Difuz ou Dulk. A intenção da Junta Municipal foi reunir no distrito uma amostra variada das diferentes correntes e técnicas da arte urbana atual. Há propostas próximas do realismo, outras fantásticas ou figurativas, trabalhos de inspiração cubista, algumas peças que dialogam com a banda desenhada ou com a ilustração e até obras que recorrem à técnica do pontilhismo, a soluções 3D e à animação”, explicam a partir da Junta. Falámos com Asem Navarro, um dos artistas envolvidos na iniciativa, autor de dois murais: “Familia de Lobos” e “Ángela”. Temos atrás de nós o Centro de Serviços Sociais de Moratalaz. Que mural é este? O que temos atrás é um dos meus murais e, além disso, traz uma parte icónica do meu percurso inicial. Comecei a pintar na rua, nas paredes. Sempre gostei de desenhar e por aí fora, mas a minha carreira arrancou precisamente com esta arte de rua. idealista/news Podemos dizer que passaste de levar multas por fazer grafittis nas paredes a ser a própria instituição a pagar‑te para o fazeres… Sim, é verdade que comecei de uma forma um pouco “ilegal”. Agora, de facto, a Câmara conta com o meu trabalho para decorar. Fala‑nos da iniciativa Muraltalaz O projeto “Muraltalaz” é uma iniciativa única. Existem muitas propostas semelhantes no resto da Europa e noutros sítios, mas acho que aqui há algo especial: reúne artistas nacionais e internacionais, vindos de todo o mundo e com estilos muito diferentes entre si. "Muraltalaz é uma iniciativa única. Reúne artistas de todo o mundo e de diferentes estilos." Tens dois murais nesta iniciativa, conta‑nos como é que entraram em contacto contigo. Através do meu site. Procuravam o meu estilo em concreto. Acho que uma das coisas boas deste projeto é precisamente terem ido à procura de linguagens muito diferentes. O meu registo é um pouco mais juvenil, com aquele toque de grafitti. Qual foi o teu primeiro trabalho para esta iniciativa? O primeiro mural foi a “Familia de Lobos”, no Colégio Martínez Montañés. Às vezes faço versões de contos infantis: pego nas histórias, interpreto‑as e acrescento‑lhes elementos da arte urbana, do grafitti, para lhes dar um ar mais juvenil. Foi isso que fiz em Martínez Montañés, uma reinterpretação da história do Capuchinho Vermelho. idealista/news E este outro mural é a “Angela”? É um mural de um anjo a descer, um símbolo do trabalho de quem está nos serviços sociais, a proteger os mais vulneráveis. Mas tem também um segundo significado. É uma homenagem pessoal à minha filha, que nasceu há pouco tempo e se chama Angela. Por isso, a tipografia urbana que aparece em baixo tem o nome dela, “Angela”. É, ao mesmo tempo, um tributo às equipas de Serviços Sociais, que fazem um trabalho que considero muito importante, e uma homenagem aos meus. Quanto tempo demoraste a fazê‑lo? Duas semanas e mais uns dois dias. Gostei de o pintar, mas houve muitos problemas. Um dos principais foi a grua: o terreno é inclinado e havia tampas de esgoto. A grua teve de ser pequena, do tipo “lagarta”, e deu bastantes dores de cabeça, era muito mais lenta e tornava o trabalho mais demorado. Houve mais complicações do que o previsto, mas lá fomos contornando tudo e o mural acabou‑se dentro dos prazos. Como é que se trabalha num mural destes? A minha especialidade é a lata de spray, tinta esmalte em spray, mas, como as fachadas são grandes, é preciso protegê‑las: começa‑se sempre com uma primeira demão de tinta plástica. Em superfícies tão grandes, é essencial fazer o esboço com uma quadrícula, para que tudo fique bem encaixado. Depois, volta‑se a revestir com tinta plástica e, a seguir, entram em cena todos os efeitos de spray para dar volume, contorno e aquele bocadinho de magia que faz a diferença. idealista/news Quantas latas de spray é que isto leva? Isso é difícil de contabilizar. Não te sei dizer em número de latas, só em sacos e sacos. Spray é uma quantidade enorme. Tinham liberdade criativa? Deram bastante liberdade artística, sim, mas sublinharam – e com razão – que era importante ter em conta o local e que o mural tivesse relação com o sítio onde ia ficar. “Deram muita liberdade artística, mas insistem na importância do sítio: o mural tem de estar relacionado com a localização.” idealista/news Que opinião tens desta iniciativa? Para mim é algo único, sinto‑me muito orgulhoso. Na minha cidade nunca tinha acontecido nada parecido. Tal como alguém se orgulha da sua equipa ou da seleção de Espanha, eu fico muito contente por ver Moratalaz, e Madrid, colocadas no mapa das cidades com arte urbana. E ainda por cima com artistas tão bons. Pessoalmente, acho que a seleção foi mesmo muito interessante. O “Muraltalaz” foi financiado com o orçamento da Junta Municipal de Distrito e com verbas adicionais dos fundos de Reequilíbrio Territorial geridos pela Câmara Municipal. “Acrescentámos um valor extra, que é garantir a plena acessibilidade ao conteúdo”, explicam. Em cada obra há placas informativas com códigos Navilens, que se podem descarregar gratuitamente e dão acesso a todos os detalhes das peças e dos seus autores, num repositório de conteúdos adaptado também a pessoas cegas ou com baixa visão. Além disso, essas mesmas placas têm validação em leitura fácil, o que permite que sejam compreendidas por pessoas com deficiênci Imobiliário Partilhar artigo FacebookXPinterestWhatsAppCopiar link Link copiado